"La mer est ton miroir" - Exhibition in Lisboa (29.5.2024 / 17.6. 2024)
"Oceano Atlântico" Por José Sousa Machado, diretor da Galeria Sá da Costa
“Ó mar anterior a nós, teus medos tinham coral e praias e arvoredos. (…)” (Fernando Pessoa, “MENSAGEM – II. Horizonte”) A harmonia, vibrante e apelativa, que se revela na superfície das pinturas de Kasimir de Dalmau agora expostas na Sá da Costa, encobre o turbilhão de sensações e emoções que se revolvem nas profundezas, em espasmos de inquietude. Se, num primeiro relance, somos embalados na cadência ritmada, enfeitiçante, da sua ondulação cromática superficial, rapidamente nos apercebemos que a sua natureza é dúplice, ancorada no magma em ebulição de onde irrompe… como se a ordem estivesse de atalaia sobre o caos, circunscrevendo a desmesura, a mansidão peneirasse o desregramento e a harmonia irrompesse do seio da desordem – relembrando-nos a longínqua irmandade consanguínea de Apolo e Dionísio. Na exposição actual, intitulada “La mer est ton miroir”, Kasimir de Dalmau apresenta obras de diferentes séries, quase todas realizadas a partir de 2021 – “Mar salgado” (2022), “The sky on the sea ” (2021/2022 ) ou “Today the sun has not appeared at twilight, you should know it” (2023), entre outras – inspiradas, por um lado, em paisagens naturais específicas – o oceano que nos banha, momentos crepusculares vividos à beira do Atlântico, por exemplo – mas, por outro lado, convocando a presença de poetas e artistas visuais referenciais no panorama da cultura contemporânea ocidental, como Baudelaire, Pessoa, Garcia Lorca, Tàpies, Soutine, Rauschenberg ou Asger Jorn. Se refiro esta profusão de artistas tutelares da nossa cultura comum – que os títulos das obras mencionam explicitamente e elas mesmas glosam –, é porque eles são, de algum modo, interlocutores activos neste solilóquio criativo do artista, através de um discurso subjacente de formas e de cores. Nesta exposição, Kasimir de Dalmau trabalha exclusivamente sobre papel e cartão, suportes pregnantes que absorvem, agregam e integram as sucessivas camadas de cor que recebem, criando uma massa homogénea outra, impactante visualmente e de forte sugestão táctil. Por outro lado, quase todas as pinturas expostas apresentam um corte transversal que sugere a existência de dois planos de experiências plástica e espiritual distintos, diferenciados por uma linha horizontal – um horizonte no nosso campo de visão que separa o nível material, denso e opaco, de uma outra região espiritual, etérea, guardiã do repositório simbólico e mítico da humanidade. A delimitação destes dois planos , são expressos por Kasimir de Dalmau através de fortes contrastes cromáticos ou pelo recorte do suporte em duas partes iguais, uma superior e outra inferior. Num texto intitulado “Notas de leitura sobre um texto de Walter Benjamin”, texto esse que ela mesma traduziu para o português, Maria Filomena Molder escreve que “as linhas vertical e horizontal convocam, nas inúmeras simbologias conhecidas, os pólos dos olhos, a postura dos membros, a orientação do corpo na sua totalidade, em correspondência com o eixo da terra, o movimento do Sol, a disposição astral na abóbada celeste”, concluindo, mais adiante, que “a linha horizontal contém uma energia terrena, comparativa, finita; a linha vertical parece instituir uma potência espiritual, uma familiaridade com o absoluto.” Ambas consistem em cristalizações de gestos primordiais. No caso de Kasimir de Dalmau, o corte transversal, as linhas horizontais que cruzam as pinturas, definem com precisão o espaço que corresponde a cada um destes dois patamares da experiência humana neste mundo, mas transformam, inusitadamente, cada um deles, no espelho do outro, adensando, assim, a turbulência que referi no início deste texto e que exprimo agora em tom poético: A lua brilha esplêndida em todo o Atlântico. Rastos de luz prateada, concêntricos, excessivos, chegam do mar até mim. Música no oceano; ao largo a voz semeia o vento – confinamento imenso, o céu e o mar, espelhos de tudo. Nada é para os homens duradouro, nem a noite cintilante, nem a dor.
José Sousa Machado, diretor da Galeria Sá da Costa
"Oceano Atlântico" Por José Sousa Machado, diretor da Galeria Sá da Costa
“Ó mar anterior a nós, teus medos tinham coral e praias e arvoredos. (…)” (Fernando Pessoa, “MENSAGEM – II. Horizonte”) A harmonia, vibrante e apelativa, que se revela na superfície das pinturas de Kasimir de Dalmau agora expostas na Sá da Costa, encobre o turbilhão de sensações e emoções que se revolvem nas profundezas, em espasmos de inquietude. Se, num primeiro relance, somos embalados na cadência ritmada, enfeitiçante, da sua ondulação cromática superficial, rapidamente nos apercebemos que a sua natureza é dúplice, ancorada no magma em ebulição de onde irrompe… como se a ordem estivesse de atalaia sobre o caos, circunscrevendo a desmesura, a mansidão peneirasse o desregramento e a harmonia irrompesse do seio da desordem – relembrando-nos a longínqua irmandade consanguínea de Apolo e Dionísio. Na exposição actual, intitulada “La mer est ton miroir”, Kasimir de Dalmau apresenta obras de diferentes séries, quase todas realizadas a partir de 2021 – “Mar salgado” (2022), “The sky on the sea ” (2021/2022 ) ou “Today the sun has not appeared at twilight, you should know it” (2023), entre outras – inspiradas, por um lado, em paisagens naturais específicas – o oceano que nos banha, momentos crepusculares vividos à beira do Atlântico, por exemplo – mas, por outro lado, convocando a presença de poetas e artistas visuais referenciais no panorama da cultura contemporânea ocidental, como Baudelaire, Pessoa, Garcia Lorca, Tàpies, Soutine, Rauschenberg ou Asger Jorn. Se refiro esta profusão de artistas tutelares da nossa cultura comum – que os títulos das obras mencionam explicitamente e elas mesmas glosam –, é porque eles são, de algum modo, interlocutores activos neste solilóquio criativo do artista, através de um discurso subjacente de formas e de cores. Nesta exposição, Kasimir de Dalmau trabalha exclusivamente sobre papel e cartão, suportes pregnantes que absorvem, agregam e integram as sucessivas camadas de cor que recebem, criando uma massa homogénea outra, impactante visualmente e de forte sugestão táctil. Por outro lado, quase todas as pinturas expostas apresentam um corte transversal que sugere a existência de dois planos de experiências plástica e espiritual distintos, diferenciados por uma linha horizontal – um horizonte no nosso campo de visão que separa o nível material, denso e opaco, de uma outra região espiritual, etérea, guardiã do repositório simbólico e mítico da humanidade. A delimitação destes dois planos , são expressos por Kasimir de Dalmau através de fortes contrastes cromáticos ou pelo recorte do suporte em duas partes iguais, uma superior e outra inferior. Num texto intitulado “Notas de leitura sobre um texto de Walter Benjamin”, texto esse que ela mesma traduziu para o português, Maria Filomena Molder escreve que “as linhas vertical e horizontal convocam, nas inúmeras simbologias conhecidas, os pólos dos olhos, a postura dos membros, a orientação do corpo na sua totalidade, em correspondência com o eixo da terra, o movimento do Sol, a disposição astral na abóbada celeste”, concluindo, mais adiante, que “a linha horizontal contém uma energia terrena, comparativa, finita; a linha vertical parece instituir uma potência espiritual, uma familiaridade com o absoluto.” Ambas consistem em cristalizações de gestos primordiais. No caso de Kasimir de Dalmau, o corte transversal, as linhas horizontais que cruzam as pinturas, definem com precisão o espaço que corresponde a cada um destes dois patamares da experiência humana neste mundo, mas transformam, inusitadamente, cada um deles, no espelho do outro, adensando, assim, a turbulência que referi no início deste texto e que exprimo agora em tom poético: A lua brilha esplêndida em todo o Atlântico. Rastos de luz prateada, concêntricos, excessivos, chegam do mar até mim. Música no oceano; ao largo a voz semeia o vento – confinamento imenso, o céu e o mar, espelhos de tudo. Nada é para os homens duradouro, nem a noite cintilante, nem a dor.
José Sousa Machado, diretor da Galeria Sá da Costa
"Oceano Atlântico" Por José Sousa Machado, diretor da Galeria Sá da Costa
“Ó mar anterior a nós, teus medos tinham coral e praias e arvoredos. (…)” (Fernando Pessoa, “MENSAGEM – II. Horizonte”) A harmonia, vibrante e apelativa, que se revela na superfície das pinturas de Kasimir de Dalmau agora expostas na Sá da Costa, encobre o turbilhão de sensações e emoções que se revolvem nas profundezas, em espasmos de inquietude. Se, num primeiro relance, somos embalados na cadência ritmada, enfeitiçante, da sua ondulação cromática superficial, rapidamente nos apercebemos que a sua natureza é dúplice, ancorada no magma em ebulição de onde irrompe… como se a ordem estivesse de atalaia sobre o caos, circunscrevendo a desmesura, a mansidão peneirasse o desregramento e a harmonia irrompesse do seio da desordem – relembrando-nos a longínqua irmandade consanguínea de Apolo e Dionísio. Na exposição actual, intitulada “La mer est ton miroir”, Kasimir de Dalmau apresenta obras de diferentes séries, quase todas realizadas a partir de 2021 – “Mar salgado” (2022), “The sky on the sea ” (2021/2022 ) ou “Today the sun has not appeared at twilight, you should know it” (2023), entre outras – inspiradas, por um lado, em paisagens naturais específicas – o oceano que nos banha, momentos crepusculares vividos à beira do Atlântico, por exemplo – mas, por outro lado, convocando a presença de poetas e artistas visuais referenciais no panorama da cultura contemporânea ocidental, como Baudelaire, Pessoa, Garcia Lorca, Tàpies, Soutine, Rauschenberg ou Asger Jorn. Se refiro esta profusão de artistas tutelares da nossa cultura comum – que os títulos das obras mencionam explicitamente e elas mesmas glosam –, é porque eles são, de algum modo, interlocutores activos neste solilóquio criativo do artista, através de um discurso subjacente de formas e de cores. Nesta exposição, Kasimir de Dalmau trabalha exclusivamente sobre papel e cartão, suportes pregnantes que absorvem, agregam e integram as sucessivas camadas de cor que recebem, criando uma massa homogénea outra, impactante visualmente e de forte sugestão táctil. Por outro lado, quase todas as pinturas expostas apresentam um corte transversal que sugere a existência de dois planos de experiências plástica e espiritual distintos, diferenciados por uma linha horizontal – um horizonte no nosso campo de visão que separa o nível material, denso e opaco, de uma outra região espiritual, etérea, guardiã do repositório simbólico e mítico da humanidade. A delimitação destes dois planos , são expressos por Kasimir de Dalmau através de fortes contrastes cromáticos ou pelo recorte do suporte em duas partes iguais, uma superior e outra inferior. Num texto intitulado “Notas de leitura sobre um texto de Walter Benjamin”, texto esse que ela mesma traduziu para o português, Maria Filomena Molder escreve que “as linhas vertical e horizontal convocam, nas inúmeras simbologias conhecidas, os pólos dos olhos, a postura dos membros, a orientação do corpo na sua totalidade, em correspondência com o eixo da terra, o movimento do Sol, a disposição astral na abóbada celeste”, concluindo, mais adiante, que “a linha horizontal contém uma energia terrena, comparativa, finita; a linha vertical parece instituir uma potência espiritual, uma familiaridade com o absoluto.” Ambas consistem em cristalizações de gestos primordiais. No caso de Kasimir de Dalmau, o corte transversal, as linhas horizontais que cruzam as pinturas, definem com precisão o espaço que corresponde a cada um destes dois patamares da experiência humana neste mundo, mas transformam, inusitadamente, cada um deles, no espelho do outro, adensando, assim, a turbulência que referi no início deste texto e que exprimo agora em tom poético: A lua brilha esplêndida em todo o Atlântico. Rastos de luz prateada, concêntricos, excessivos, chegam do mar até mim. Música no oceano; ao largo a voz semeia o vento – confinamento imenso, o céu e o mar, espelhos de tudo. Nada é para os homens duradouro, nem a noite cintilante, nem a dor.